Aral Moreira
Os desafios da Educação da/na região fronteira
JEFFERSON MACHADO BARBOSA (PESQUISADOR, ESCRITOR E PROFESSOR)
— 141O ensino na região de fronteira seca tem sido assunto comentado nos diversos meios de comunicação na atualidade. De fato. A educação na fronteira é desafiadora também devido ao encontro de línguas o que torna um contexto sociolinguísticamente complexo. No caso específico da fronteira internacional de Aral Moreira-Brasil com a Microrregião Departamento Santa Virginia-Paraguai os alunos são deslocados, desde cedo, do Paraguai às escolas brasileiras e levam junto consigo sua cultura, sua identidade, sua língua e demais costumes. A escola brasileira funciona como uma “arena de conflito”, pois é um espaço onde tudo acontece. Por exemplo, é na escola que as línguas espanholas, guaranis e brasileiras se misturam, juntamente com as interlínguas portunhol e jôpará. O desafio de aprender e ensinar a língua portuguesa exigida pela escola é grande. Ainda mais a língua portuguesa da escola. Diferente da língua portuguesa nata, aquela realmente falada pelo aluno brasileiro.
Muitas Universidades Estaduais. Federais e Particulares têm se debruçados em programas e projetos que viabilizam o ensino de língua portuguesa em região de fronteira, mas parece que o desafio continua, cada vez, maior. O indígena. Por exemplo, tem, cada vez mais, lutado para que sua língua não seja invisibilizada. Enquanto que o paraguaio tem lutado para que sua língua não permanece apenas no portunhol.
A realidade na escola é bastante complexa. Como ensinar a língua portuguesa padrão da gramática, ou do livro didático, ao indígena ou ao paraguaio? Quais ferramentas pedagógicas utilizar? Como ensinar sem apagar a língua materna? Estes são questionamentos bastantes desafiadores. Por isso, volto a dizer que a escola é uma “arena de conflito.” Tem de ter uma pedagogia culturalmente sensível, sem preconceito.
Não há uma língua correta, ou certa. O que há são variantes linguísticas. Nenhuma língua é melhor do que a outra. Devemos respeitar as variantes linguísticas e ensinar que existe variedades linguísticas. O português padrão da gramática, ou do livro didático, tido como correto, nada mais é do que uma variedade linguística, assim como o português que o aluno traz de seu conhecimento de mundo de casa. O conhecimento da língua portuguesa prévio, aquele que o aluno traz de casa, deve ser respeitado e também trabalhado em sala de aula, pois se trata do conhecimento de mundo do aluno, de sua identidade, sua cultura etc.
Infelizmente, na atualidade, mediamente a tantos estudos, infelizmente ainda há o preconceito linguístico, ainda mais com línguas minoritárias, tais como guarani e interlíngua jôpará. Isso acarreta, ao longo do tempo, o apagamento dessas línguas e a sobreposição de línguas majoritárias. Ser bilíngue na fronteira é tarefa desafiadora. Contudo, acreditamos numa sociedade reflexiva que enxergue a língua como algo nato do cidadão e o respeite, acima de tudo, visto que se trata de sua cultura, sua identidade. Assim, teremos uma sociedade mais culturalmente e pedagogicamente sensível.


